26.1.06

 

A Música Portuguesa em Portugal

Recentemente, a propósito da aprovação no Parlamento de uma Lei que estabelece quotas mínimas obrigatórias de passagem de música portuguesa nas Rádios, tem-se falado da presença, ou antes, da ausência da música portuguesa nas emissoras de rádio em Portugal.

Logo na enunciação do tema, ele soa a qualquer coisa de absurdo. Pouca gente, por esse mundo fora, acharia a esta nossa particular situação como normal. Afinal, em que país nos encontramos ?

Em Portugal, porém, parece que, no capítulo da música, vivemos exilados, mendigando quotas dos responsáveis das rádios que nos permitam escutar um pouco de música portuguesa.

Note-se que não se apela à exlusividade, mas tão-só a uma reserva, um espaço mínimo, capaz de veicular algumas peças de música portuguesa, para satisfação, dir-se-ia, de um núcleo residual de saudosos inveterados que persistem em cultivar esse gosto, para muitos, pelo visto, despropositado, de escutar música portuguesa em Portugal. A isto chegámos.

Querem os desempoeirados rapazes que pontificam na Comunicação Social que a situação de desfavor, em que se encontra a música portuguesa, se deve a uma irremediável falta de qualidade da dita, em contraposição com a excelente categoria da restante música que sói ouvir-se, invariavelmente de origem estrangeira, obviamente de indisputável qualidade.

Haveria até, quem sabe, uma congénita malformação no espírito dos portugueses que os tornaria incapazes de produzir música ligeira de qualidade.

Tudo isto seria ridículo se não fosse trágico, sintomático do estado de espírito confuso, equivocado, sem discernimento, que caiu sobre as cabeças de parte significativa de nossos compatriotas.

Bem lhes podemos apresentar argumentos, provas, exemplos, modelos, etc., que dificilmente lhes faremos entrar na caixa craniana, neste domínio, uma só ideia razoável que seja.

Sem necessidade sequer de arvorar sentimentos de patriotismo, por mais legítimos que se nos afigurem, na Rádio, nas presentes circunstâncias absurdas em que nos achamos, faz todo o sentido impor uma quota mínima de música nacional.

Em quase toda a parte, sem ser necessário criar uma Lei para o efeito, isto é, para difundir preferencialmente música nacional, esta é tratada com especial atenção, dando-se-lhe prioridade, a começar aqui ao lado, na nossa vizinha Espanha. A discussão da qualidade, alegadamente fraca, da música portuguesa, é um sofisma que não resiste à mais modesta análise.

A maior parte da música estrangeira que passam, anglo-saxónica, tem baixa qualidade, como quem quer que esteja atento ao fenómeno pode confirmar. E, então, sobre a qualidade das letras dessas canções, nem é bom falar. Quando se consegue entendê-las, comprova-se a sua inanidade, a sua pobreza de ideias e de sentimentos, repetitiva por demasia e de teor cultural elementaríssimo, por vezes parece que concebidas para débeis mentais. Porquê condescender aqui, na música estrangeira, e exigir o contrário na nacional ?

A comparação com a literatura, feita por alguns, não tem neste caso nenhum cabimento. São coisas completamente diferentes.

Se não privilegiarmos a música nacional, na nossa Rádio, corremos, em primeiro lugar, o risco de desabituar o ouvinte português de a escutar, de a apreciar, criando até uma espécie de complexo, que pode até resultar em aversão, mesmo em relação à que tenha qualidade.

Pode alguém que nunca ouviu Mozart ter opinião, ainda por cima desfavorável, sobre a sua música ?

Antes do mais, é preciso, primeiro, ouvi-la, para que depois surja o conhecimento e, mais tarde, o gosto, com a consequente adesão, pelo menos para uma parte apreciável da população.

A perda de contacto com a música portuguesa fará da população portuguesa, a prazo, uma massa de gente desmunida de alguns fundamentais elementos de identificação cultural.

Os jovens, principalmente, ficarão sem referências da música do seu país, da sua cultura, e tornar-se-ão presas fáceis de qualquer mixórdia bem comercializada que lhes apresentem.De resto, já nos aproximámos demasiado deste estado de coisas.

Um povo que não preserve a sua cultura está destinado a desaparecer ou a ser colonizado por outras mais agressivas, menos complexadas, quer tenham ou não qualidade intrínseca. Isto não significa que nos fechemos aos contributos culturais, musicais, alheios. Nada disso, mas não deveremos tão-pouco cair em ingenuidades suicidárias.

Isto que parece de elementar bom senso, torna-se de muito difícil aceitação para uma parte significativa dos nossos modernaços responsáveis da Comunicação Social, que se espantarão, por certo, de que haja quem ainda goste de ouvir cantar em Português, depois do seu laborioso empenho na desmemoriação compulsiva do auditório nacional.

Como remate deste dignificante objectivo, há, em Portugal, quem já só se digne cantar em Inglês, achando mesmo inconcebível o uso, para fins musicais, da Língua Portuguesa, como se antes tivessem experimentado e concluído da sua completa inaptidão ; como se tivessem tal familiaridade com o inglês que naturalmente o utilizassem para a sua produção literária, atingindo as letras, que essas cosmopolitas meninges segregam, os píncaros da perfeição.

Gente que, falando desde a infância o português, estudando-o desde a Escola Primária, revela tão pouca perícia no seu domínio, pretende convencer-nos que, apenas com alguns anos de precária aprendizagem do inglês, se encontra habilitada a fazer dele a sua língua de trabalho, pelo menos, musical. Quem ousa impingir-nos tal absurdo ?

Outros, mais sofisticados, alegarão que é tudo uma questão de Mercado, que assim se ampliará para eles e que o mesmo se encarregará de impor a qualidade, ganhando a preferência do público os melhores autores musicais, as melhores canções, numa candura de impressionante comoção.

Em concomitância, a moda prevalecente de que o Mercado e apenas ele é que dita, inexoravelmente, a qualidade de qualquer produto material ou cultural revela-se um embuste grosseiro, que urge desmistificar, em particular nos sectores culturais, onde imensa mediocridade se tem afirmado graças ao uso de técnicas subtis de publicidade, sustentadas por bem montadas máquinas de distribuição comercial.

Todo esse vasto arsenal de recursos actuando conjugadamente, com perícia apurada, acaba por impor, em grande medida, a preferência da mediocridade no consumo cultural das multidões, que, individualmente, julgam exercer soberanamente uma distinta opção pessoal.

Nisto consiste a subtileza e, naturalmente, a eficácia do Marquetingue, ou Marketing, para os mais excelsos, felizmente, com algumas lacunas pelo meio, por onde falha a sua final pretensão de nos condicionar em absoluto, ainda assim, com assinalável sucesso.

No caso da música, parece evidente que, se não se educar o gosto, se não se der oportunidade à expressão da música portuguesa, nas Rádios e nas TV, se esta não for oferecida em quantidade significativa, dificilmente se alcançará a desejada qualidade, que, não obstante, existe, em proporção semelhante à que encontramos na música estrangeira maioritariamente escutada.

Atente-se ainda que, quando não havia destes complexos anti-nacionais, a música portuguesa era geralmente ouvida com agrado e tinha melhor qualidade. Basta comparar as canções portuguesas que, ao longo de décadas, nos representaram no Festival da Eurovisão. A sua qualidade tem decaído continuamente dos anos 60 para cá.

Deverá, por isso, concluir-se que os autores e compositores portugueses têm perdido inspiração ?

E se os nossos futuros escritores aderirem ao uso do inglês ou do espanhol, nas suas produções literárias, que acham vocelências que sucederá à Língua Portuguesa, em Portugal, pelo menos, admitindo que o mesmo absurdo não se observe nos demais países que a têm por tradição e opção como língua oficial ?

Ai,Portugal, Portugal... Melhores fados te fadem, que estes que presentemente te descortinamos...

AV_Lisboa, 25 de Janeiro de 2006

Comments:
Amigo
Sabes o quanto gosto da música portuguesa, e vejo nesta lei uma semelhança a uma lei que estabelecia aqui no Brasil cotas ou percentuais de exibição no cinema de películas brasileiras há alguns anos. Não havia espaço para os filmes brasileiros nas casa de espetáculos e viamos o nosso cinema perecer. Isto serviu de impulso para que boas películas fossem levadas a termo e a evolução do cinema brasileiro que cresceu muito.
Espero que esta lei tenha o mesmo sucesso.
Abraços de
Semida
 
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